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SAESP – Sociedade de Anestesiologia do Estado de São Paulo

Brain Target: um alvo da proteção perioperatória para segurança do paciente

Brain Target

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A anestesiologia avançou de forma significativa nas últimas décadas, em que a monitorização de diversas funções orgânicas tornou-se parte essencial da segurança do paciente cirúrgico. Ao mesmo tempo, o perfil dos pacientes mudou: pessoas mais idosas, frágeis, com múltiplas comorbidades e submetidas a procedimentos cada vez mais complexos chegam com maior frequência aos centros cirúrgicos.

Surge então, uma questão que ganha cada vez mais espaço na medicina perioperatória: como proteger o cérebro durante todo o período que envolve uma cirurgia?

É a partir dessa necessidade que nasce a iniciativa Brain Target, da SAESP, voltada à proteção cerebral de pacientes cirúrgicos de alto risco. A proposta é ampliar o olhar sobre a segurança perioperatória, integrando monitorização avançada, decisões farmacológicas e estratégias de recuperação para que a saúde cerebral seja considerada um desfecho tão importante quanto os demais parâmetros tradicionalmente acompanhados.

Para Dra. Claudia Simões, Presidente da SAESP, uma das principais motivações para a criação do projeto é justamente a transformação do perfil dos pacientes e da própria definição de sucesso cirúrgico.

“A anestesiologia evoluiu muito em segurança nas últimas décadas. Hoje monitoramos com muita precisão a oxigenação, a ventilação, a hemodinâmica e diversas funções orgânicas. Mas existe um órgão que ainda precisa ocupar um espaço maior na nossa estratégia de proteção perioperatória: o cérebro”, explica.

Essa preocupação ganha ainda mais relevância porque o cérebro é, ao mesmo tempo, o órgão-alvo de grande parte da intervenção anestésica, responsável pela perda de consciência e pela modulação da dor, e um sistema extremamente sensível às alterações fisiológicas que podem ocorrer durante uma operação.

De acordo com Dra. Claudia, o conceito de sucesso precisa ir além da sobrevivência à cirurgia ou da alta hospitalar: “Precisamos considerar como esse paciente estará depois da cirurgia, avaliar sua cognição, autonomia, capacidade funcional e qualidade de vida”.

Essa visão reforça a importância de enxergar o paciente de forma integral. Cuidar da saúde cerebral não significa olhar apenas para um órgão, mas contribuir para melhores desfechos de maneira geral, preservando a recuperação, a funcionalidade e a qualidade de vida do paciente. 

A perspectiva muda a própria pergunta que orienta o cuidado, pois não se deve apenas saber se o paciente passou bem pelo procedimento, mas de compreender como seu cérebro atravessou todo o período perioperatório.

Por que o cérebro é tão vulnerável?

O cérebro depende de um equilíbrio delicado entre fluxo sanguíneo, oxigenação, metabolismo e mecanismos de autorregulação. Durante uma cirurgia, especialmente em pacientes idosos, frágeis ou com doenças cardiovasculares e neurológicas, esse equilíbrio pode ser comprometido por diferentes fatores.

Hipotensão, alterações da oxigenação e da ventilação, anemia, inflamação, distúrbios metabólicos, medicamentos, dor, privação do sono e o próprio estresse cirúrgico podem atuar simultaneamente.

Além disso, parâmetros fisiológicos aparentemente semelhantes não necessariamente representam a mesma condição cerebral em todos os pacientes. Dois indivíduos podem apresentar a mesma pressão arterial ou saturação periférica de oxigênio e, ainda assim, terem reservas cerebrais muito diferentes.

Existe também uma dificuldade adicional, na qual nem toda agressão cerebral perioperatória se manifesta de maneira imediatamente evidente. Eventos como delirium e alterações cognitivas podem comprometer a recuperação, prolongar a hospitalização e afetar a autonomia do paciente, mesmo sem a ocorrência de um evento neurológico dramático.

É nesse espaço que o Brain Target pretende atuar: tornar o cérebro um alvo explícito de proteção, prevenção e monitoramento dentro da medicina perioperatória.

Da anestesia “Brain-Blinded” à anestesia “Brain-Guided”

Na avaliação do Dr. Enis Donizette, ex-presidente da SAESP e Fundador e Presidente do Conselho da Fundação para Segurança do Paciente, existe um paradoxo na prática anestésica contemporânea: embora o cérebro seja o órgão-alvo de praticamente toda intervenção anestésica, seu acompanhamento ainda ocorre muitas vezes de maneira indireta.

“O cérebro permanece sendo o único sistema que monitoramos apenas indiretamente na rotina cirúrgica”, afirma.

Dr. Enis utiliza o conceito de anestesia “Brain-Blinded” para descrever um modelo em que a titulação farmacológica é orientada principalmente por parâmetros hemodinâmicos e clínicos, sem um retorno neurofuncional direto.

A proposta do Brain Target é avançar em direção a uma anestesia “Brain-Guided”, na qual dados de monitoramento neurofisiológico, incluindo EEG processado e índices de profundidade anestésica, possam integrar a tomada de decisão intraoperatória.

Além de incorporar novos equipamentos à sala cirúrgica, a mudança representa uma ampliação do papel do anestesiologista. A vigilância tradicional da homeostase sistêmica passa a incluir também a interpretação neurofisiológica em tempo real, colocando o cérebro de maneira explícita entre os órgãos monitorados durante o procedimento.

Conhecimento, tecnologia e implementação

Para que essa mudança alcance a prática clínica, o Brain Target está estruturado em diferentes frentes. Entre elas estão a formação continuada, com simpósios voltados aos desfechos neurocognitivos perioperatórios; a geração de evidência nacional, por meio da estruturação do BRAIN-SAFE Trial; e o desenvolvimento de parcerias tecnológicas relacionadas ao monitoramento neurofuncional.

A proposta é que a implementação seja gradual e adaptável à realidade e à maturidade de cada serviço.

Para tanto, a educação ocupa papel central. A incorporação de novas formas de monitorização exige não apenas acesso à tecnologia, mas também conhecimento para interpretar seus dados e incorporá-los adequadamente às decisões clínicas.

Essa formação já faz parte das iniciativas educacionais da SAESP. Em seu Centro de Simulação, a Sociedade oferece treinamentos voltados à integração entre anestesia venosa e monitorização cerebral, como o Workshop de Anestesia Venosa e Monitorização Cerebral, que combina conteúdo baseado em evidências, simulação de ajuste de bombas de infusão alvo-controlada, interpretação de parâmetros de EEG processado e discussão de casos clínicos. 

Ou seja, o objetivo não é substituir o julgamento do anestesiologista, mas ampliar as informações disponíveis para que decisões cada vez mais individualizadas possam ser tomadas durante o período perioperatório.

Uma nova cultura de proteção cerebral

O Brain Target parte de uma mudança de perspectiva: se o cérebro é diretamente afetado pela anestesia e pode sofrer as consequências das alterações fisiológicas provocadas pelo procedimento cirúrgico, sua proteção precisa estar presente em todas as etapas do cuidado.

Isso começa na avaliação pré-operatória, considerando as características e reservas individuais de cada paciente, passa pelas decisões anestésicas e pela monitorização intraoperatória e continua durante a recuperação e o acompanhamento pós-operatório.

“A proposta é criar uma cultura em que proteger o cérebro seja entendido como parte essencial da segurança perioperatória”, resume a Dra. Claudia.

Para o Dr. Enis, essa transformação também representa uma evolução no próprio escopo de atuação do anestesiologista: “O profissional deixa de acompanhar o cérebro apenas por meio de sinais indiretos e passa a incorporar dados neurofisiológicos à condução anestésica”, explica. 

Em uma medicina perioperatória cada vez mais voltada para pacientes complexos e para a qualidade da recuperação, o Brain Target chega para olharmos também para o depois – para a recuperação, a função e a experiência do paciente. 

Proteger o cérebro é contribuir para que o paciente se recupere melhor como um todo, preservando sua funcionalidade, autonomia e qualidade de vida. É ampliar o conceito de segurança perioperatória para além da sala de cirurgia. 

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