Programa We Care
Acolher, diagnosticar
e orientar o tratamento
O We Care é o programa da SAESP para o anestesiologista com dependência química. O atendimento é gratuito, em total anonimato e sigilo, e está aberto também a familiares, colegas e chefes de serviço.
A dependência química entre anestesiologistas
Há décadas a dependência química é uma das questões mais preocupantes da saúde mental dos médicos. As pesquisas mostram índices elevados de consumo de drogas entre esses profissionais, e a anestesiologia aparece como uma das especialidades mais frequentes.
Em uma amostra clínica de 198 médicos brasileiros em tratamento por dependência, os anestesiologistas representavam 12,5% do total, embora sejam apenas 3% da população médica. Percentuais bastante parecidos apareceram em um estudo americano com mil médicos. O suicídio relacionado à dependência química também é maior entre anestesiologistas do que entre médicos de outras especialidades.
Muita gente supõe que quem trabalha na saúde, conhecendo de perto os efeitos nocivos do uso repetido de substâncias psicoativas, se sentiria desencorajado a usá-las. Não é o que acontece: a incidência entre esses profissionais é praticamente a mesma da população em geral, com uma diferença que pesa muito, porque eles têm vidas humanas em suas mãos.
As implicações da doença são tão assustadoras que o próprio anestesiologista tende a negar os sintomas ou a minimizá-los pelo maior tempo possível. O abuso raramente é relatado por quem está adoecido: quase sempre a busca por ajuda parte dos colegas e da família.
O risco maior entre os anestesiologistas não tem uma resposta única. É a combinação de fatores genéticos e ambientais que pesa.
Os fatores que mais contribuem:
- Predisposição genética: a configuração genética pode responder pela predisposição de mais de 50% dos anestesiologistas que desenvolvem abuso de substâncias. Em quem tem essa predisposição, a simples exposição já pode levar à dependência. Sozinha, porém, a genética não explica a doença.
- Fatores psicológicos: cerca de 50% dos médicos dependentes de drogas têm distúrbios de personalidade e a maioria sofre de depressão. Daí a hipótese de que o abuso de substâncias funcione como uma forma de automedicação.
- Estresse profissional e fadiga: o cansaço físico e emocional do trabalho extenuante e das jornadas prolongadas pode levar o anestesiologista a buscar alívio nas drogas a que está exposto todos os dias, criando um mecanismo de adaptação ao estresse.
- Disponibilidade e acesso: a presença de substâncias psicoativas na rotina da anestesia e a facilidade de desviá-las para uso pessoal aumentam muito a oportunidade de uso.
Dependência química é doença, não falta de caráter
A dependência química é definida como uma doença mental caracterizada por desordens neurobiológicas e comportamentais que resultam no uso compulsivo de drogas e no desejo intenso de obtê-las. Está catalogada na 10ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial da Saúde, sob o registro de Transtornos Mentais e Comportamentais Devido ao Uso de Múltiplas Drogas e ao Abuso de Substâncias Psicoativas.
A dependência pode dizer respeito a uma substância específica, como o álcool ou a cocaína, a uma categoria delas, como os opioides ou os benzodiazepínicos, ou a um conjunto de substâncias farmacologicamente diferentes. Ela se estabelece quando a pessoa se torna incapaz de resistir à vontade de usar.
É uma doença crônica, recidivante e tratável, que leva a uma mudança progressiva de comportamento e pode comprometer todos os aspectos da vida: física, mental, emocional, econômica e social.
O dependente químico não deve ser julgado pela ótica da moralidade nem visto como alguém com defeito de personalidade. Ele é portador de uma doença crônica, de avanço progressivo e tratável.
Como funciona o programa We Care
A SAESP criou o We Care para ser a primeira porta a que o anestesiologista, a família, os colegas ou a chefia podem recorrer. O programa firma o diagnóstico, avalia a intensidade da dependência e orienta o tratamento de forma individual e pormenorizada.
Quem pode procurar o programa?
O anestesiologista que deseje entrar para o We Care e também os familiares, amigos ou chefes de serviço que convivam com um anestesiologista sob suspeita de dependência química e queiram informação ou orientação.
Como é o primeiro contato?
Pela hot line 11 3673-1213, que dá todas as orientações. Somente um colaborador da SAESP é responsável por esse atendimento, em total anonimato e sigilo.
Fase I: acolhimento e diagnóstico
O anestesiologista associado e o familiar, amigo ou chefe de serviço são encaminhados a uma de duas clínicas de psicologia especializadas em dependência química, escolhida conforme a preferência por profissional do gênero masculino ou feminino. São duas consultas de acolhimento, de cerca de duas horas cada. Análises laboratoriais para firmar o diagnóstico e medir a intensidade da dependência podem ser realizadas, também gratuitamente.
Fase II: tratamento
Esta fase tem o apoio da SAESP, mas não é custeada pela Sociedade. Consta de avaliação psiquiátrica de reinserção, feita depois de alguns meses (o prazo varia), e de acompanhamento permanente, com testagens laboratoriais e consultas periódicas cuja frequência e tipo também variam. Apenas o médico psiquiatra do programa pode avaliar e determinar a volta ou não às atividades de trabalho.
Fase III: reinserção ao trabalho
Depois de determinado tempo de tratamento e de testes negativos, o paciente avaliado pelo psiquiatra pode reassumir atividades de duas formas. Sem restrições, retomando a atividade anterior ao tratamento, sempre com testagens aleatórias de rotina. Ou com restrições, liberado para clínica médica, ambulatório de avaliação pré-anestésica, setores administrativos, aulas e atividades afins. Nessa situação, a SAESP pode oferecer curso gratuito para que ele se torne instrutor de cursos e workshops da Sociedade, também com o compromisso das testagens aleatórias.
Quanto custa participar?
A Fase I é gratuita, incluindo as duas consultas de acolhimento e as análises laboratoriais de diagnóstico. A Fase II tem o apoio da SAESP, mas não é custeada pela Sociedade.
O depoimento do Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira
Professor titular de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o Dr. Ronaldo Laranjeira manifesta seu apoio ao programa da SAESP em depoimento gravado em vídeo.
Bibliografia
Os estudos que embasam o conteúdo desta página.
Brooker S, Fitzsimons M, Moore R, Duval Neto G. Dependência química em anestesiologistas: atualidade. Rev Bras Anestesiol 2017;67(3):227-230.
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Hot line We Care: 11 3673-1213. O atendimento é gratuito, anônimo e sigiloso.