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A dependência química (DQ) é definida como doença mental caracterizada por desordens neurobiológicas e comportamentais que resultam no uso compulsivo de drogas e no intenso desejo de obtê-las1. Está catalogada na 10ª edição da Classificação Internacional de Doenças - CID-10, da Organização Mundial da Saúde, sob o registro de “Transtornos Mentais e Comportamentais Devido ao Uso de Múltiplas Drogas e ao Abuso de Substâncias Psicoativas”.

A dependência pode dizer respeito a uma substância psicoativa específica, por exemplo, álcool ou cocaína, a uma categoria delas, por exemplo opioides ou benzodiazepínicos, ou a um conjunto de substâncias farmacologicamente diferentes. Estabelece-se quando a pessoa se torna incapaz de resistir à vontade do uso destas substâncias.

Trata-se de uma doença crônica, recidivante, tratável, que leva o indivíduo a uma progressiva mudança de comportamento, gerando uma adaptação à doença a fim de proteger-se para continuar o uso da droga. Torna-se mais relevante por sua fatídica evolução e dramáticas consequências, desde a derrocada financeira, insanidade, prisão ou morte.

O dependente químico não deve ser julgado pela ótica da moralidade ou visto como alguém com um transtorno ou "defeito" de personalidade. Ele é na verdade portador de uma doença crônica e de avanço progressivo que pode comprometer todos os aspectos de sua vida física, mental, emocional, econômica e social. As causas da DQ são múltiplas e podem incluir fatores biológicos, genéticos, psicossociais, ambientais e culturais.

Incidência entre os anestesiologistas

Há décadas, a DQ tem sido uma das questões mais preocupantes e relevantes na área da saúde mental dos médicos.

Pesquisas têm demonstrado elevados índices de consumo de drogas entre estes profissionais, e os anestesiologistas aparecem como uma das especialidades mais frequentes2. Em uma amostra clínica de 198 médicos brasileiros que apresentavam dependência3, foi observado que, apesar dos anestesiologistas representarem 3% da população médica, eles constituíram 12,5% dos médicos sob tratamento, percentuais bastante similares aos obtidos em estudo americano com mil médicos4.

Adicionalmente, suicídio relacionado à DQ entre anestesiologistas é maior que entre profissionais médicos de outras especialidades5.

Causas da Dependência Química

O risco aumentado de DQ entre os anestesiologistas não tem uma única simples resposta. Trata-se de uma combinação de vários fatores que desempenham importantes papéis. Um deles, e causa não modificável, é a configuração genética do indivíduo, a qual pode contar para a predisposição de mais de 50% dos anestesiologistas que desenvolvem abuso de substâncias e DQ. A simples exposição às substâncias aditivas por um anestesiologista com predisposição genética pode levar à dependência da droga. Enfatiza-se, entretanto, que a predisposição genética sozinha não é o único causador para desenvolver a adição, nem é certo que aqueles com predisposição genética tornar-se-ão adictos1.

Fatores psicológicos também são descritos em contribuir para o desenvolvimento de abuso de substâncias e adição. Cerca de 50% dos médicos dependentes de drogas tem distúrbios de personalidade e a maioria sofre de depressão. Tal observação conduziu à hipótese de que o abuso de substâncias nada mais é do que uma forma de automedicação6.>

O estresse profissional e pessoal são outros fatores relevantes que podem conduzir a um círculo vicioso que culmina na adição. A fadiga, emocional e física, decorrente do trabalho extenuante e de horas de trabalho prolongado pode instigar o anestesiologista a encontrar alívio nas drogas a que está diuturnamente exposto, criando um mecanismo de adaptação ao estresse, e aumentando as chances de vir a fazer uso constante de substâncias que lhe ajude a lidar com tal situação. A disponibilidade de substancias psicoativas na prática rotineira da anestesia e a facilidade de desviá-las para uso pessoal, oportuniza sobremaneira a adição.

Portanto, a combinação de fatores genéticos e ambientais potencializam o risco do anestesiologista tornar-se dependente químico.

Reconhecimento

Muitos acreditam que os profissionais da saúde percebem os efeitos nocivos do uso repetido de substâncias psicoativas, o que lhes desencorajariam de utilizá-las, mas não é o que acontece. Esses profissionais têm praticamente a mesma incidência de DQ que a população em geral1, mas, diferentemente desta, tem vidas humanas em suas mãos!

Casos paradigmáticos de carreiras e vidas perdidas pelo vício são considerados como bons desencorajadores, mas frequentemente são casos esporádicos, únicos, sem sequência, desprovidos de valia para a conscientização do risco do mesmo vir a acontecer com o adicto.

As implicações assustadoras e fatídicas dos sintomas da DQ levam o anestesiologista adicto a negar sua significação ou a depreciá-la o maior tempo possível. Raramente o abuso é reportado pelos indivíduos afetados, recaindo sobre seus pares e parentes a busca por auxílio.

Todos médicos próximos ao anestesiologista adicto, mais cedo ou mais tarde, serão capazes de aperceberem-se acerca de mudanças na conduta, performance ou saúde de seus colegas que possam indicar problemas relacionados ao uso de drogas, e nesta situação auxiliá-lo. Uma vez que exista um alto nível de suspeição, uma intervenção deve ser considerada com o objetivo de dirigir o profissional afetado a uma instituição ou a um Programa de tratamento.

Tratamento

A adição foi reconhecida como uma doença pela AMA - American Medical Association em 1956 e desde então os protocolos de tratamento se tornaram cada vez mais elaborados e efetivos. O tratamento do anestesiologista adicto depende do precoce reconhecimento do comprometimento da doença, e de uma intervenção planejada com apoio de uma instituição com profissionais com expertise específica no tratamento de DQ.

Três instrumentos iniciais são utilizados para avaliar a DQ e sua intensidade:

  1. Avaliação psiquiátrica ou psicológica completa do dependente químico, associada às suas condições familiares e sociais.
  2. Orientação e psicoeducação dos familiares próximos.
  3. Testes laboratoriais para acompanhar e validar a abstinência e comorbidades concomitantes.

O Programa WE CARE

Frente a dramaticidade desta doença, a SAESP, atenta ao seu papel de responsabilidade social e comprometimento com os anestesiologistas e a sociedade, foi buscar entender a extensão do problema, suas causas e tratamento, para avaliar meios efetivos e contributivos para a recuperação do dependente químico. Destarte, com o valoroso auxílio de médicos altamente especializados em diagnosticar e tratar a DQ, foi elaborado o programa WE CARE.

O programa WE CARE é a fonte inicial para o paciente, familiares, colegas ou chefes de serviços do dependente químico recorrerem para firmar o diagnóstico, a intensidade da DQ e receberem orientação individual pormenorizada de tratamento e evolução da doença, gratuitamente.

Objetivos

  1. Alertar a sociedade, em geral, não somente a dos anestesiologistas, dos prejuízos à saúde, física e emocional, e econômica do dependente químico.
  2. Facilitar o diagnóstico precoce.
  3. Promover a introdução ao tratamento qualificado e altamente especializado.
  4. Promover o suporte e orientação dos familiares.
  5. Auxiliar na reinserção do paciente em ambiente de trabalho quando recuperado.

FASE I – Início e diagnóstico

  1. O anestesiologista que deseje entrar para o programa WE CARE deve entrar em contato com a HOT LINE 11 3673-1213 para receber todas as orientações. Somente um colaborador da SAESP será responsável pelas orientações, em total anonimato e sigilo. Familiares, amigos ou chefes de serviços que desejarem informações ou orientação do Programa por conviverem com um anestesiologista suspeito de DQ, também podem entrar em contato com a mesma HOT LINE.

  2. O anestesiologista associado SAESP, dependente químico e seu familiar, amigo ou chefe de serviço serão encaminhados a uma das duas clínicas de psicologia especializadas em DQ, de acordo com sua preferencia por profissional do gênero masculino ou feminino.

  3. A clínica escolhida receberá os pacientes acompanhados de familiares, amigo ou chefe de serviço para esclarecimentos e orientações sobre o tratamento. Serão realizadas duas consultas em torno de 2 horas cada:

    1. º avaliação, orientação e psicoeducação do paciente.
    2. º orientação e psicoeducação dos familiares.

  4. Análises laboratoriais de amostras para o diagnóstico e intensidade da DQ poderão ser realizadas, também gratuitamente.

FASE II - Tratamento

Esta fase terá o APOIO SAESP, mas não será custeada. Consta de:

  1. Afastamento do Serviço.
  2. Após alguns meses (variável): avaliação do psiquiatra sobre a reinserção ao trabalho. Importante salientar que apenas o psiquiatra poderá avaliar e determinar a volta ou não às atividades laborais.
  3. O tratamento é permanente e consta de testagens laboratoriais e consultas periódicas, cuja frequência e tipo de teste são variáveis.

FASE III- Reinserção ao trabalho

Após determinado tempo de tratamento e testes negativos, o paciente avaliado pelo psiquiatra como “limpo", poderá assumir atividades assistenciais ou diversas:

  1. Sem restrições – sempre com a realização rotineira de testagens randômicas, podendo reassumir atividade anterior ao tratamento.
  2. Com restrições - liberado para assistência em clínica médica, Ambulatório de Pré-Anestésico, setores administrativos, Aulas, e atividades afins.
    Nesta situação, a SAESP poderá oferecer curso gratuito para o paciente tornar-se INSTRUTOR de cursos e workshops, com a submissão de realizar testagens randômicas.


Clique aqui e veja o apoio do Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira, Professor Titular de Psiquiatria da Unifesp ao Programa WE CARE da SAESP


Bibliografia

  1. Brooker S, Fitzsimons M, Moore R, Duval Neto G. Dependência química em anestesiologistas: atualidade. Chemical dependence in anesthesiologists: the actuality. Rev Bras Anestesiol 2017;67(3):227-230.
  2. Alves HNP, Vieria DL, Laranjeira RR, Vieria JE, Martins LA. Perfil clínico e demográfico de anestesiologistas usuários de álcool e outras drogas atendidos em um serviço pioneiro no Brasil. Rev Bras Anestesiol, 2012;62(3):356-64
  3. Alves HNP, Surjan JC, Nogueira-Martins LA et al. – Perfil clínico e de- mográfico de médicos com dependência química. Rev Assoc Med Bras, 2005;51(3):139-143.
  4. GC Talbot, KV Gallegos, Wilson PO, Porter TL. The Medical Association of Georgia's Impaired Physicians Program. Review of the first 1000 physicians: analysis of specialty. JAMA 1987;257(21):2927-30.
  5. Alexander BH, Checkoway H, Nagahama SI et al. – Cause-specific mortality risks of anaesthesiologists. Anesthesiology, 2000;93:922- 930.
  6. Dick DM. The genetics of alcohol and other drug dependence. Alcohol Res Health. 2008;31:112-8.