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Solidariedade SAESP

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Sabemos que cada indivíduo tem dentro de si, inegavelmente, um potencial enorme para fazer coisas boas acontecerem e também para sentir as necessidades e dificuldades do outro. Porém, nem sempre somos capazes de sozinhos realizar ações efetivas. Talvez nos falte conhecimento, orientação e apoio, enfim, quando vemos, o tempo passou, a oportunidade se foi, e o outro, ou os outros, continua lá, precisando de uma ajuda, de um auxílio, de uma atitude!

Mas e como instituição? Será que este potencial para fazer coisas boas acontecerem não é maior e mais factível? Tal como o ditado popular: a união faz a força? Sim! Foi com esta certeza, de que atitudes coletivas e metas bem definidas constituem eixos estruturantes para realizações exitosas, que a SAESP criou o AÇÃO SOLIDÁRIA.

 

 

 

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A dependência química (DQ) é definida como doença mental caracterizada por desordens neurobiológicas e comportamentais que resultam no uso compulsivo de drogas e no intenso desejo de obtê-las¹. Está catalogada na 10ª edição da Classificação Internacional de Doenças - CID-10, da Organização Mundial da Saúde, sob o registro de “Transtornos Mentais e Comportamentais Devido ao Uso de Múltiplas Drogas e ao Abuso de Substâncias Psicoativas”.

A dependência pode dizer respeito a uma substância psicoativa específica, por exemplo, álcool ou cocaína, a uma categoria delas, por exemplo opioides ou benzodiazepínicos, ou a um conjunto de substâncias farmacologicamente diferentes. Estabelece-se quando a pessoa se torna incapaz de resistir à vontade do uso destas substâncias.

Trata-se de uma doença crônica, recidivante, tratável, que leva o indivíduo a uma progressiva mudança de comportamento, gerando uma adaptação à doença a fim de proteger-se para continuar o uso da droga. Torna-se mais relevante por sua fatídica evolução e dramáticas consequências, desde a derrocada financeira, insanidade, prisão ou morte.

O dependente químico não deve ser julgado pela ótica da moralidade ou visto como alguém com um transtorno ou "defeito" de personalidade. Ele é na verdade portador de uma doença crônica e de avanço progressivo que pode comprometer todos os aspectos de sua vida física, mental, emocional, econômica e social. As causas da DQ são múltiplas e podem incluir fatores biológicos, genéticos, psicossociais, ambientais e culturais.

Incidência entre os anestesiologistas

 

Há décadas, a DQ tem sido uma das questões mais preocupantes e relevantes na área da saúde mental dos médicos.

Pesquisas têm demonstrado elevados índices de consumo de drogas entre estes profissionais, e os anestesiologistas aparecem como uma das especialidades mais frequentes². Em uma amostra clínica de 198 médicos brasileiros que apresentavam dependência3, foi observado que, apesar dos anestesiologistas representarem 3% da população médica, eles constituíram 12,5% dos médicos sob tratamento, percentuais bastante similares aos obtidos em estudo americano com mil médicos4.

Adicionalmente, suicídio relacionado à DQ entre anestesiologistas é maior que entre profissionais médicos de outras especialidades5.

Causas da Dependência Química

O risco aumentado de DQ entre os anestesiologistas não tem uma única simples resposta. Trata-se de uma combinação de vários fatores que desempenham importantes papéis. Um deles, e causa não modificável, é a configuração genética do indivíduo, a qual pode contar para a predisposição de mais de 50% dos anestesiologistas que desenvolvem abuso de substâncias e DQ. A simples exposição às substâncias aditivas por um anestesiologista com predisposição genética pode levar à dependência da droga. Enfatiza-se, entretanto, que a predisposição genética sozinha não é o único causador para desenvolver a adição, nem é certo que aqueles com predisposição genética tornar-se-ão adictos¹.

Fatores psicológicos também são descritos em contribuir para o desenvolvimento de abuso de substâncias e adição. Cerca de 50% dos médicos dependentes de drogas tem distúrbios de personalidade e a maioria sofre de depressão. Tal observação conduziu à hipótese de que o abuso de substâncias nada mais é do que uma forma de automedicação6.

O estresse profissional e pessoal são outros fatores relevantes que podem conduzir a um círculo vicioso que culmina na adição. A fadiga, emocional e física, decorrente do trabalho extenuante e de horas de trabalho prolongado pode instigar o anestesiologista a encontrar alívio nas drogas a que está diuturnamente exposto, criando um mecanismo de adaptação ao estresse, e aumentando as chances de vir a fazer uso constante de substâncias que lhe ajude a lidar com tal situação. A disponibilidade de substancias psicoativas na prática rotineira da anestesia e a facilidade de desviá-las para uso pessoal, oportuniza sobremaneira a adição.

Portanto, a combinação de fatores genéticos e ambientais potencializam o risco do anestesiologista tornar-se dependente químico.

Reconhecimento

Muitos acreditam que os profissionais da saúde percebem os efeitos nocivos do uso repetido de substâncias psicoativas, o que lhes desencorajariam de utilizá-las, mas não é o que acontece. Esses profissionais têm praticamente a mesma incidência de DQ que a população em geral¹, mas, diferentemente desta, tem vidas humanas em suas mãos!

Casos paradigmáticos de carreiras e vidas perdidas pelo vício são considerados como bons desencorajadores, mas frequentemente são casos esporádicos, únicos, sem sequência, desprovidos de valia para a conscientização do risco do mesmo vir a acontecer com o adicto.

As implicações assustadoras e fatídicas dos sintomas da DQ levam o anestesiologista adicto a negar sua significação ou a depreciá-la o maior tempo possível. Raramente o abuso é reportado pelos indivíduos afetados, recaindo sobre seus pares e parentes a busca por auxílio.

Todos médicos próximos ao anestesiologista adicto, mais cedo ou mais tarde, serão capazes de aperceberem-se acerca de mudanças na conduta, performance ou sau´de de seus colegas que possam indicar problemas relacionados ao uso de drogas, e nesta situação auxiliá-lo. Uma vez que exista um alto nível de suspeição, uma intervenção deve ser considerada com o objetivo de dirigir o profissional afetado a uma instituição ou a um Programa de tratamento.

Tratamento

A adição foi reconhecida como uma doença pela AMA - American Medical Association em 1956 e desde então os protocolos de tratamento se tornaram cada vez mais elaborados e efetivos. O tratamento do anestesiologista adicto depende do precoce reconhecimento do comprometimento da doença, e de uma intervenção planejada com apoio de uma instituição com profissionais com expertise específica no tratamento de DQ.

Três instrumentos iniciais são utilizados para avaliar a DQ e sua intensidade:

  1. Avaliação psiquiátrica ou psicológica completa do dependente químico, associada às suas condições familiares e sociais.
  2. Orientação e psicoeducação dos familiares próximos.
  3. Testes laboratoriais para acompanhar e validar a abstinência e comorbidades concomitantes.

 

O Programa WE CARE

Frente a dramaticidade desta doença, a SAESP, atenta ao seu papel de responsabilidade social e comprometimento com os anestesiologistas e a sociedade, foi buscar entender a extensão do problema, suas causas e tratamento, para avaliar meios efetivos e contributivos para a recuperação do dependente químico. Destarte, com o valoroso auxílio de médicos altamente especializados em diagnosticar e tratar a DQ, foi elaborado o programa WE CARE.

O programa WE CARE é a fonte inicial para o paciente, familiares, colegas ou chefes de serviços do dependente químico recorrerem para firmar o diagnóstico, a intensidade da DQ e receberem orientação individual pormenorizada de tratamento e evolução da doença, gratuitamente.

Objetivos

Alertar a sociedade, em geral, não somente a dos anestesiologistas, dos prejuízos à saúde, física e emocional, e econômica do dependente químico.

  1. Facilitar o diagnóstico precoce.
  2. Promover a introdução ao tratamento qualificado e altamente especializado.
  3. Promover o suporte e orientação dos familiares.
  4. Auxiliar na reinserção do paciente em ambiente de trabalho quando recuperado.

FASE I – Início e diagnóstico

O anestesiologista que deseje entrar para o programa WE CARE deve entrar em contato com a HOT LINE 11 3673-1213 para receber todas as orientações. Somente um colaborador da SAESP será responsável pelas orientações, em total anonimato e sigilo. Familiares, amigos ou chefes de serviços que desejarem informações ou orientação do Programa por conviverem com um anestesiologista suspeito de DQ, também podem entrar em contato com a mesma HOT LINE.

O anestesiologista associado SAESP, dependente químico e seu familiar, amigo ou chefe de serviço serão encaminhados a uma das duas clínicas de psicologia especializadas em DQ, de acordo com sua preferência por profissional do gênero masculino ou feminino.

A clínica escolhida receberá os pacientes acompanhados de familiares, amigo ou chefe de serviço para esclarecimentos e orientações sobre o tratamento. Serão realizadas duas consultas em torno de 2 horas cada:

  • avaliação, orientação e psicoeducação do paciente.
  • orientação e psicoeducação dos familiares.

Análises laboratoriais de amostras para o diagnóstico e intensidade da DQ poderão ser realizadas, também gratuitamente.

FASE II - Tratamento

Esta fase terá o APOIO SAESP, mas não será custeada. Consta de:

  • Afastamento do Serviço.

Após alguns meses (variável): avaliação do psiquiatra sobre a reinserção ao trabalho. Importante salientar que apenas o psiquiatra poderá avaliar e determinar a volta ou não às atividades laborais.

O tratamento é permanente e consta de testagens laboratoriais e consultas periódicas, cuja frequência e tipo de teste são variáveis.

FASE III- Reinserção ao trabalho

Após determinado tempo de tratamento e testes negativos, o paciente avaliado pelo psiquiatra como “limpo", poderá assumir atividades assistenciais ou diversas:

Sem restrições – sempre com a realização rotineira de testagens randômicas, podendo reassumir atividade anterior ao tratamento.

Com restrições - liberado para assistência em clínica médica, Ambulatório de Pré-Anestésico, setores administrativos, Aulas, e atividades afins.
Nesta situação, a SAESP poderá oferecer curso gratuito para o paciente tornar-se INSTRUTOR de cursos e workshops, com a submissão de realizar testagens randômicas.

Clique aqui e veja o apoio do Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira, Professor Titular de Psiquiatria da Unifesp ao Programa WE CARE da SAESP

Bibliografia

Brooker S, Fitzsimons M, Moore R, Duval Neto G. Dependência qui´mica em anestesiologistas: atualidade. Chemical dependence in anesthesiologists: the actuality. Rev Bras Anestesiol 2017;67(3):227-230.

Alves HNP, Vieria DL, Laranjeira RR, Vieria JE, Martins LA. Perfil cli´nico e demogra´fico de anestesiologistas usua´rios de a´lcool e outras drogas atendidos em um serviço pioneiro no Brasil. Rev Bras Anestesiol, 2012;62(3):356-64

Alves HNP, Surjan JC, Nogueira-Martins LA et al. – Perfil cli´nico e de- mogra´fico de me´dicos com dependência qui´mica. Rev Assoc Med Bras, 2005;51(3):139-143.

GC Talbot, KV Gallegos, Wilson PO, Porter TL. The Medical Association of Georgia's Impaired Physicians Program. Review of the first 1000 physicians: analysis of specialty. JAMA 1987;257(21):2927-30.

Alexander BH, Checkoway H, Nagahama SI et al. – Cause-specific mortality risks of anaesthesiologists. Anesthesiology, 2000;93:922- 930.

Dick DM. The genetics of alcohol and other drug dependence. Alcohol Res Health. 2008;31:112-8.